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A Ovelha Perdida: E Se Você Não For a Ovelha da História?

De todas as histórias que Jesus contou, a da Ovelha Perdida é, provavelmente, uma das mais queridas — e uma das mais reconfortantes. A cena é conhecida: um pastor tem cem ovelhas, uma se perde, e ele deixa as noventa e nove para ir atrás daquela única, até encontrá-la. Quando acha, não a repreende; coloca-a sobre os ombros, cheio de alegria, e a leva de volta para casa, chamando os amigos para comemorar. É uma imagem linda do cuidado de Deus por cada pessoa. Ninguém é descartável. Ninguém se perde a ponto de não ser procurado.

Essa leitura está correta, e vale guardá-la. Mas há uma boa chance de que, se você conhece a parábola só por esse lado, tenha deixado passar algo importante — algo que muda bastante o que a história significa. Porque, quando se presta atenção em para quem Jesus estava olhando ao contar essa parábola, e na frase com que Ele a encerra, descobre-se que a Ovelha Perdida não é apenas um afago para quem se sente perdido. É também um espelho — e um espelho incômodo — para quem tem certeza de que está no lugar certo.

Para quem Jesus estava olhando

As parábolas de Jesus quase nunca vinham do nada. Elas costumavam responder a alguma coisa que estava acontecendo ali, na hora — e a Ovelha Perdida não é exceção. O contexto está registrado logo antes da história, e é ele que abre a porta para o verdadeiro sentido.

O texto conta a cena: "chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles" (Lucas 15:1-2). Ou seja: de um lado, uma multidão de gente marginalizada — cobradores de impostos, pessoas de má reputação — se aproximando de Jesus com fome de ouvi-lo. Do outro, os líderes religiosos, incomodados, resmungando por Ele se misturar com aquele tipo de gente.

Foi essa murmuração que provocou a parábola. E isso muda o foco de tudo. Costumamos ouvir a história imaginando que somos a ovelha perdida, sendo buscada com carinho — e há verdade nisso. Mas o público que Jesus tinha diante dos olhos, e a quem a parábola era principalmente dirigida, não era a ovelha perdida. Eram os que estavam incomodados com a ovelha perdida sendo recebida. A história não foi contada, em primeiro lugar, para consolar quem se perdeu. Foi contada para confrontar quem não suportava ver o perdido sendo acolhido.

A conta que não fecha

Antes de chegar ao espelho, vale reparar num detalhe da história que costuma passar batido: do ponto de vista prático, o que o pastor faz não faz o menor sentido.

Pense na matemática. Um pastor com cem ovelhas perde uma. E, para buscar essa única, ele deixa as outras noventa e nove. Qualquer administrador diria que é um mau negócio: arriscar a atenção sobre noventa e nove por causa de uma só é desproporcional, ineficiente. A lógica fria mandaria dar a uma por perdida e cuidar do rebanho que restou. Um por cento não justifica abandonar o foco nos noventa e nove por cento.

Só que a parábola não está preocupada com essa lógica — e é justamente esse o ponto. Vale esclarecer que a história não sugere que o pastor seja negligente, nem que as noventa e nove fiquem desamparadas; a ênfase não está na proporção, mas em outra coisa. O que Jesus mostra é que, na maneira de Deus enxergar, o que se perdeu não vira um número descartável. Vale ser buscado com tudo. O amor que a parábola descreve não é um cálculo de custo-benefício, não pesa se "compensa" ir atrás de alguém. Para Deus, uma pessoa perdida não é uma estatística aceitável de perda. É alguém que se sai a procurar, custe o que custar. E essa é uma lógica que desmonta a nossa tendência de medir as pessoas por percentuais.

A ovelha não se salva sozinha

Há ainda um detalhe da parábola que é fácil de ignorar e que, quando notado, é de uma ternura enorme. Repare no que a ovelha faz para ser salva: nada.

A ovelha não encontra o caminho de volta. Não segue rastros, não corre atrás do pastor, não dá um jeito de se aproximar de casa. Ela está perdida, e permanece perdida até que o pastor a encontre. E, quando é encontrada, o texto diz que o pastor a coloca sobre os próprios ombros e a carrega de volta (Lucas 15:5). A ovelha não volta andando: ela é carregada. Do começo ao fim, a iniciativa é inteira do pastor. A única coisa que a ovelha faz é se deixar achar e se deixar carregar.

Esse detalhe diz muito sobre como a Bíblia entende a graça de Deus. Não é uma história sobre alguém que se esforçou muito, encontrou o caminho e mereceu ser reencontrado. É uma história sobre alguém completamente incapaz de se salvar, que é buscado, achado e trazido de volta por pura iniciativa de quem o procurava. Você não precisa rastejar de volta até Deus com as suas próprias forças. Segundo a parábola, é Ele quem vem atrás — e é Ele quem carrega. Um antigo comentário observa esse contraste de um jeito bonito: a ovelha, sozinha, não faz nada para se arrepender; mas a pessoa que ouve a história, essa sim, é convidada a se arrepender quando percebe que foi encontrada. O gesto é de Deus; a resposta é nossa.

O espelho para os 99

E agora chegamos à parte mais afiada — e à frase com que Jesus encerra a parábola, que muda completamente o alvo da história.

Depois de descrever a alegria do pastor, Jesus conclui: "assim haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento" (Lucas 15:7). É uma frase que merece ser lida devagar, porque ela tem um alvo. Lembre quem estava ouvindo: os fariseus e escribas, que se consideravam justos e murmuravam contra a aproximação dos pecadores. Agora repare na expressão que Jesus usa — "noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento". É quase uma descrição exata de como aqueles religiosos se viam a si mesmos: gente certa, em dia, que não precisava de nada.

Jesus está, com muito cuidado e sem agredir ninguém, segurando um espelho diante deles. Ele mostra que existe um tipo de coração que, mesmo estando "dentro", perto das coisas de Deus, é incapaz de se alegrar quando a graça alcança alguém que ele já havia descartado. Os fariseus não conseguiam comemorar a volta de um pecador — e a parábola expõe isso delicadamente, ao mostrar que o céu inteiro faz festa exatamente por aquilo que eles desprezavam. O problema deles não era estar perto de Deus; era estar perto e, ainda assim, com o coração fechado para a alegria dele.

E é aqui que a história se volta para quem a lê, com uma pergunta que é bem mais desconfortável do que "você está perdido?". A pergunta é: qual ovelha é você? A que se perdeu e está sendo carregada de volta, no meio da festa — ou uma das noventa e nove, de braços cruzados, achando que a festa não devia estar acontecendo? Dá para estar perto de Deus a vida inteira e, mesmo assim, se parecer mais com os que murmuravam do que com o pastor que comemora. A parábola conforta quem se sente perdido, sim. Mas ela cutuca quem se sente justo demais para precisar de busca.

O que fazer com isso

A Ovelha Perdida faz, ao mesmo tempo, duas coisas que raramente colocamos juntas. Ela conforta: não importa o quanto você se sinta longe, existe um Deus que vai atrás, que carrega de volta, que comemora o reencontro. E ela confronta: será que você consegue se alegrar quando esse mesmo Deus vai atrás de alguém que você preferia manter do lado de fora? As duas coisas estão na história, e perder qualquer uma delas é perder metade do que Jesus quis dizer.

Vale muito a leitura do capítulo inteiro direto na fonte, em Lucas 15. Porque a Ovelha Perdida não veio sozinha: logo depois dela, Jesus conta a parábola da moeda perdida e, em seguida, a do filho perdido — as três, uma atrás da outra, respondendo à mesma murmuração dos religiosos. A Ovelha é só a primeira nota de uma resposta longa e coerente sobre a alegria de Deus com quem volta, e sobre a estranha dificuldade que as pessoas "certas" têm de compartilhar dessa alegria. Lida assim, no conjunto, a história deixa de ser apenas uma imagem fofa sobre um pastor e vira uma pergunta que persegue o leitor: diante da graça alcançando os outros, de que lado do teu coração você está?


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