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Por Que Jesus Curou Por Último?

A cena começa com quatro homens subindo no telhado de uma casa em Cafarnaum. Lá embaixo, no interior, está Jesus — e uma multidão tão grande que não sobra espaço nem na porta. Os quatro olham para o teto. Depois olham para o paralítico que estão carregando. E tomam uma decisão que o texto de Marcos registra sem comentário: eles abrem um buraco.

O que acontece depois chocou todo mundo na sala. Exceto Jesus.

Cafarnaum e o telhado que deu acesso

Cafarnaum ficava na margem norte do Mar da Galileia — um importante e próspero centro de pesca e comércio, onde moravam tanto gentios quanto judeus, com população estimada em nunca mais de mil pessoas no século I. Era uma cidade de cruzamentos: situada no entroncamento de importantes rotas comerciais, cercada de terras férteis, com presença militar romana e uma sinagoga construída pelo próprio centurião local.

Jesus havia escolhido Cafarnaum como base de operações após deixar Nazaré. Jesus pode ter vivido com Pedro durante a sua estadia em Cafarnaum — e é provavelmente essa casa que Marcos descreve quando diz que Jesus "estava em casa". Escavadores italianos que trabalham em Cafarnaum podem ter descoberto os restos da humilde casa de Pedro que Jesus chamou de lar enquanto estava em Cafarnaum.

As casas de Cafarnaum eram construídas com pedras de basalto negro, o material vulcânico abundante na região. Os telhados, no entanto, eram estruturas de vigas de madeira cobertas por ramos entrelaçados, palha e argila compactada — telhados planos, funcionais, usados para dormir nos dias quentes. Não eram permanentes da forma que imaginamos. Eram refaíveis. Abrir um buraco era trabalhoso — mas era possível.

É nesse contexto que quatro homens chegam carregando um paralítico e encontram a entrada bloqueada. Sobem, avaliam o telhado e começam a escavar.

A fé que Jesus viu — e de quem era

O detalhe mais preciso do texto de Marcos está no versículo 5: "Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: Filho, os seus pecados estão perdoados."

A fé que eles tinham. Não a fé do paralítico. A fé dos quatro.

O texto não registra o paralítico pedindo nada. Não registra sua confissão, sua súplica, sua crença declarada. O que Jesus viu foi o esforço de quatro homens que decidiram que uma multidão, um telhado e a gravidade não seriam impedimento suficiente. Essa fé — concreta, física, coletiva — foi o que moveu Jesus a agir.

Há algo perturbador nessa observação: a cura de um homem foi precipitada pela fé de outros. A teologia popular tende a individualizar a fé — como se cada um fosse responsável exclusivamente pela própria interação com Deus. Marcos registra o oposto. Quatro pessoas carregaram alguém literalmente até Jesus. E Jesus respondeu a isso.

A sequência que ninguém esperava

Os quatro esperavam uma cura. A multidão esperava uma cura. O paralítico, se esperava algo, esperava uma cura.

Jesus disse: "Filho, os seus pecados estão perdoados."

Estavam sentados ali alguns mestres da lei, pensando no íntimo: "Por que este homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, senão somente Deus?"

A reação dos escribas é teologicamente impecável. Na tradição judaica, o perdão de pecados era prerrogativa exclusiva de Deus — não de profetas, não de sacerdotes, não de intermediários humanos. Os escribas estavam corretos. O problema não era a teologia. Era a conclusão que eles se recusavam a tirar: se o homem que estava ali podia perdoar pecados, ele era — ou estava agindo com autoridade de — Deus.

Ao proferir essas palavras, Jesus não estava apenas agindo como um profeta ou um curandeiro; Ele estava assumindo uma prerrogativa divina.

Jesus sabia o que pensavam. Como Jesus sabia em seu espírito o que estavam pensando, disse‑lhes: "Por que pensam essas coisas no coração de vocês?" — e então formulou a pergunta que colocou todos diante de um dilema sem saída.

A pergunta que expôs tudo

"O que é mais fácil dizer ao paralítico: 'Os seus pecados estão perdoados' ou dizer: 'Levante‑se, pegue a sua maca e ande'?"

A pergunta tem uma resposta óbvia e uma resposta verdadeira — e as duas não são a mesma coisa.

A resposta óbvia: é mais fácil dizer "seus pecados estão perdoados", porque ninguém pode verificar se aconteceu. A cura física, por outro lado, é imediatamente verificável — ou o homem se levanta ou não se levanta.

A resposta verdadeira: as duas coisas são igualmente impossíveis para qualquer ser humano. Nenhum homem pode perdoar pecados — isso só Deus pode. E nenhum homem pode curar uma paralisia completa com uma palavra — isso também só Deus pode. Se o Senhor Jesus podia fazer uma, podia fazer a outra. E as duas apontavam para a mesma realidade: Ele era quem dizia ser.

Então Jesus ordenou ao paralítico que se levantasse. E ele se levantou.

Ele se levantou, pegou imediatamente a maca e saiu à vista de todos. Com isso, todos ficaram admirados e glorificavam a Deus, dizendo: "Nunca vimos nada igual!"

A cura foi a prova do não-verificável. O milagre físico foi o argumento para o milagre espiritual. Jesus não curou por último por descuido ou por ordem arbitrária. Curou por último porque a sequência era o ponto.

O que os quatro homens trouxeram ao telhado era um paralítico. O que Jesus enxergou dentro daquele homem era algo que a paralisia não causara — e que a cura da paralisia sozinha não resolveria. O texto de Marcos não diz que o paralítico tinha pecados específicos que causaram sua condição. O que diz é que Jesus viu o que precisava ser tratado primeiro.

E tratou.


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