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Gálatas: a carta que Paulo não começou com agradecimento

Paulo escreveu pelo menos treze cartas que chegaram até nós. Cartas para Roma, Corinto, Éfeso, Filipos, Colossas, Tessalônica. Todas começam com alguma forma de agradecimento ou elogio aos destinatários — exceto uma.

Gálatas começa assim: "Maravilho-me de que assim tão depressa estejais abandonando aquele que vos chamou pela graça de Cristo." (Gálatas 1:6)

Sem agradecimento. Sem elogio. Sem introdução gentil. Direto ao ponto. E o ponto era urgente.

A Galácia não era uma cidade — era uma província romana no coração da Ásia Menor, o que hoje é a Turquia central. Seus habitantes descendiam de tribos celtas que haviam migrado da Europa séculos antes; falavam grego, viviam sob domínio de Roma há décadas. Paulo havia chegado até ali durante sua primeira viagem missionária, por volta do ano 47 d.C., plantou igrejas em cidades como Listra e Icônio, e partiu. O evangelho tinha, no máximo, dois ou três anos naquelas comunidades quando chegou o grupo que mudaria tudo.

O que havia acontecido

Paulo havia fundado igrejas na Galácia durante suas viagens missionárias. Depois que ele partiu, um grupo chegou com uma mensagem que parecia ser apenas complementar: fé em Cristo era um bom começo, mas não suficiente. Os cristãos gentios também precisavam ser circuncidados e guardar a Lei de Moisés para ser verdadeiramente salvos.

Paulo soube disso à distância — estava em Antioquia ou em Corinto — e escreveu a carta imediatamente, ainda em choque.

A lógica do grupo era sedutora: Paulo havia pregado um evangelho incompleto. Faltava a parte da Lei. Havia uma tradição de séculos por trás daquela exigência — não era algo inventado.

A resposta de Paulo era simples e direta: se isso for verdade, a morte de Cristo foi desnecessária. "Se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão." (Gálatas 2:21) Para Paulo, não era uma questão de acrescentar um requisito ao evangelho. Era uma questão de o evangelho ser o que era — ou não ser nada.

A carta mais dura de Paulo

Gálatas é provavelmente o texto mais inflamado que Paulo escreveu. "Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou?" (Gálatas 3:1) Ele amaldiçoa duas vezes qualquer um que pregue outro evangelho — incluindo a si mesmo e até um anjo do céu (Gálatas 1:8-9). Chega ao ponto de desejar que os que insistiam na circuncisão "fossem além e se mutilassem de vez" (Gálatas 5:12).

E havia uma cena pessoal que Paulo precisava relatar. Em Antioquia, Pedro havia começado a se afastar dos gentios nas refeições por pressão de um grupo vindo de Jerusalém. Paulo o confrontou publicamente: "resisti-lhe face a face, porque era repreensível." (Gálatas 2:11) Pedro — o principal dos apóstolos — havia cedido. Paulo não.

O que estava em jogo não era um detalhe litúrgico. Era a resposta à pergunta mais fundamental do evangelho: a morte de Cristo foi suficiente ou não? Essa pergunta não comporta meio-termo.

O que ficou da carta mais raivosa

Apesar do tom — ou por causa dele — Gálatas carrega alguns dos textos mais libertadores do Novo Testamento.

"Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus." (Gálatas 3:28) Essa frase saiu da carta mais raivosa de Paulo.

O capítulo 5 lista os frutos do Espírito — amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gálatas 5:22-23). Também saíram de lá.

Um detalhe que o próprio Paulo registra: ele escreveu esta carta de próprio punho, sem secretário. "Vede com que letras grandes vos escrevo de minha própria mão." (Gálatas 6:11) A urgência era tamanha que ele não ditou — escreveu.

E a última linha que escolheu para assinar essa carta foi esta: "Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo." (Gálatas 6:14)

Depois de toda a argumentação, toda a raiva, todo o conflito com Pedro — foi isso que Paulo guardou para o final. A carta que ele escreveu mais furioso terminou no mesmo lugar que todas as outras: na cruz.


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