O amor é paciente. Paulo escreveu isso para Corinto.
Corinto.
Corinto era uma das cidades mais prósperas e mais dissoltas do mundo antigo. Situada no estreito istmo que ligava o continente grego ao Peloponeso, controlava o comércio entre dois mares — o Adriático a oeste e o Egeu a leste. Era um caldeirão: gregos, romanos, egípcios, comerciantes, escravos libertos, pessoas de todo o Mediterrâneo convivendo numa mesma cidade. A influência dos cultos pagãos era forte e cotidiana. Tanto que "korinthiazesthai" — "agir como coríntio" — havia se tornado um verbo grego para comportamento imoral. Paulo chegou ali por volta de 50 d.C., ficou dezoito meses — mais do que em qualquer outra cidade em suas viagens — e plantou uma igreja. Anos depois, essa igreja lhe enviaria o relatório mais preocupante de toda a sua carreira.
O relatório que chegou de Corinto
A carta foi escrita de Éfeso, por volta de 55 d.C., em resposta a dois tipos de notícia: um relato oral vindo da casa de Cloe (1 Coríntios 1:11) e uma carta que a própria comunidade havia enviado com perguntas.
O que Paulo ouviu era perturbador. A comunidade estava dividida em facções: "Eu sou de Paulo", "Eu sou de Apolo", "Eu sou de Cefas", "Eu sou de Cristo" (1:12). Havia um caso de imoralidade sexual descrito como algo "que nem entre os pagãos se encontra" — um homem vivendo com a mulher do próprio pai (5:1). Membros da comunidade estavam processando uns aos outros em tribunais civis (6). Na Ceia do Senhor, os ricos chegavam cedo, comiam e bebiam à vontade, enquanto os pobres chegavam depois e passavam fome (11:21). E havia uma disputa acalorada sobre dons espirituais — especialmente o dom de línguas — que estava gerando orgulho, competição e desordem nas reuniões (12–14).
A comunidade tinha muitos dons. Tinha pouco amor.
Por que o capítulo 13 está onde está
O capítulo 13 de 1 Coríntios não é um texto avulso. Ele está encaixado entre dois capítulos sobre dons espirituais — o capítulo 12 explica os dons, o capítulo 14 regula seu uso. Paulo não escreveu um poema sobre amor no meio desses dois capítulos por acaso.
Ele escreveu porque os coríntios estavam usando seus dons para se exibir, para competir, para dividir. A primeira linha é um aviso direto: "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine." (13:1) O dom de línguas era exatamente aquele pelo qual os coríntios mais se orgulhavam.
O capítulo 13 não descreve Corinto. É um espelho apontado para eles. "O amor não se enorgulha" — mas eles se enorgulhavam. "Não busca seus próprios interesses" — mas estavam se processando. "Não se comporta com indecência" — mas o incesto era tolerado. Paulo não estava poetizando. Estava corrigindo.
O que ficou da carta mais difícil
Da comunidade mais problemática que Paulo conheceu saíram alguns dos textos mais importantes do Novo Testamento.
O capítulo 11 contém o mais antigo relato escrito da Última Ceia — anterior a qualquer um dos Evangelhos (11:23-26). O capítulo 15 contém o mais antigo credo cristão: "que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia." (15:3-4) Paulo registra que esse credo já circulava antes dele — o que o torna ainda mais antigo.
E o capítulo 13 — que muita gente leu em casamentos sem saber de onde veio — fecha com uma das frases mais conhecidas da Bíblia: "O amor nunca falha." (13:8)
Paulo não escreveu isso para gente que estava acertando. Escreveu para gente que precisava ouvir.
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